17 2025 junho
O eco do IV Congresso Nacional da Advocacia realizado em León (1970)
Por Fernando Rodriguez Santocildes, reitor de Colegio de la Abogacía de León e presidente do Conselho da Ordem dos Advogados de Castela e Leão.

Passaram-se cinquenta e cinco anos desde que a cidade de León acolheu, em junho de 1970, o IV Congresso Nacional da Abogacía EspañolaMeio século não conseguiu diluir nem o eco dessas vozes nem a profundidade de um encontro que marcou uma virada na história da advocacia e, em certa medida, no processo de transformação política que levaria a Espanha à democracia.
Aquele congresso não foi simplesmente um evento corporativo. Foi um despertar coletivo. Um gesto de afirmação ética e profissional que, em um contexto autoritário, antecipou os valores do Estado de Direito consagrados na Constituição Espanhola de 1978. Foi também a confirmação de que a profissão jurídica, quando reconhecida como garantidora dos direitos fundamentais, pode se tornar uma força moral, uma bússola social e uma consciência cívica.
Um congresso no limiar da mudança
León foi escolhida como sede sob a premissa da neutralidade política. Segundo Luis Revenga Domínguez, advogado de León e principal impulsionador do evento, era uma cidade com "pouca politização... onde o trabalho podia ser feito de uma perspectiva estritamente profissional e apolítica". No entanto, a realidade logo superou essa intenção. Mais de mil advogados se reuniram na cidade, muitos deles nomes que mais tarde participariam ativamente do processo constituinte: Miguel Roca, Antonio Garrigues, Gregorio Peces-Barba, Manuela Carmena, Cristina Almeida, Francisca Sauquillo, Pablo Castellanos, Óscar Alzaga, Joaquín Ruiz-Giménez.
De León também levantaram a voz colegas como Juan Rodríguez García-Lozano, Urbano González Santos-Díaz Caneja, José María Suárez González e Juan González-Palacios Martínez, que se tornariam reitores do colégio, além de outros colegas como Ángel Emilio Martínez García e Carlos Callejo de la Puente, entre outros.
A imagem simbólica daquele congresso foi, sem dúvida, a saída silenciosa de um grupo de congressistas durante o discurso do Ministro da Justiça na sessão de abertura. Um gesto sereno, mas retumbante, que foi até noticiado pelo jornal francês Le Monde como um sinal de autonomia e espírito crítico em relação ao regime.
Da defesa introspectiva à defesa social
Até então, as conferências se concentravam quase exclusivamente em questões internas da profissão: filiação, ética e funcionamento de associações profissionais. León marcou uma mudança em direção à defesa social.
Questões de enorme relevância — e ainda não totalmente resolvidas hoje — foram abordadas, como a previdência social insuficiente para esse grupo e a necessidade de proteção abrangente contra a velhice, a invalidez e a viuvez. Em 2025, continuamos a exigir uma porta de entrada legal para o RETA (Serviço Nacional de Receitas), que reconheça e garanta pensões dignas para os profissionais, independentemente de sua poupança ou método de contribuição. A tramitação parlamentar dessas questões requer apoio urgente e imediato.

O debate também incluiu a dignificação do Serviço de Assistência Judiciária e a gratuidade da assistência judiciária, pilares essenciais para garantir a efetivação do direito à defesa. Hoje, continuamos a levantar nossas vozes, pois, embora a Lei da Gratuidade da Assistência Judiciária de 1996 tenha representado um avanço, ainda reivindicamos uma legislação atualizada que reconheça o verdadeiro valor e dignifique o trabalho daqueles que garantem o acesso à justiça para os mais vulneráveis.
Outras questões estruturais também foram abordadas, como intrusão profissional, tributação e regulamentação de profissionais de direito empresarial, muitas das quais foram sujeitas a reformas parciais nos anos subsequentes, mas ainda aguardam revisão e atualização.
Uma profissão jurídica que levanta a sua voz pela liberdade
Mas León era mais do que uma agenda técnica. Era um clamor reprimido por liberdade. Defendia os princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos, pedia o fim de tribunais excepcionais como o Tribunal de Ordem Pública, exigia justiça imparcial e ordinária, levantava a voz contra a pena de morte e propunha anistia para crimes políticos e sociais.
Aquele encontro foi, sem que soubéssemos plenamente, o primeiro ato coletivo da profissão jurídica rumo ao constitucionalismo. A conferência de León semeou uma consciência que germinaria anos depois com a promulgação da Constituição Espanhola de 1978, e cuja defesa foi e continua sendo a razão de ser da profissão jurídica.
Pouco tempo depois, essa mesma consciência pagaria um preço altíssimo: o assassinato dos advogados de Atocha, em janeiro de 1977 — colegas que deram a vida pela lei, pela liberdade e pela justiça — marcou uma geração inteira e nos lembrou, com sangue e luto, que exercer a advocacia em defesa dos direitos humanos é, às vezes, um ato de heroísmo.
Isso se refletiu em trabalhos recentes que recuperam e descrevem em profundidade esse marco histórico, como o documentário de Pilar Pérez Solano "La defensa, por la libertad" (A defesa, pela liberdade), ou o livro de Fernando Jáuregui "Los abogados que cambion España" (Os advogados que mudaram a Espanha), que mostram claramente como aquele congresso semeou não apenas ideias, mas também uma atitude: a de uma advocacia comprometida, consciente e corajosa.
Memória, compromisso e futuro
Hoje, em uma sociedade juridicamente complexa e digital, institucionalmente tensa e politicamente polarizada, o papel da profissão jurídica como garantidora de direitos e liberdades é mais necessário do que nunca. Sem advogados livres e independentes, não há proteção judicial eficaz, nem cidadania ativa, nem democracia sólida.
A recente aprovação da Lei Orgânica do Direito de Defesa, que reconhece essa garantia como uma questão própria, é um passo histórico. O respeito à confidencialidade, a liberdade de ação e a proteção contra interferências externas deixam de ser aspirações e se tornam compromissos normativos. É, sem dúvida, uma conquista que honra o espírito de León 1970.
Mas o trabalho não está concluído. Enquanto não alcançarmos uma seguridade social justa, uma escala de serviço verdadeiramente digna e condições que garantam a sustentabilidade do livre exercício da justiça, o direito à defesa permanecerá, em parte, uma promessa não cumprida.
E é por isso que hoje nos lembramos de León. Não apenas como uma lembrança, mas como um compromisso. Porque lembrar não é ficar preso ao passado, mas sim se comprometer com o presente e o futuro.
Desde então, presidentes como Antonio Pedrol, Eugenio Gay, Carlos Carnicer, Victoria Ortega e, hoje, Salvador González Martín encarnaram essa continuidade institucional e o espírito reformista que nasceram em León. Seu legado e obra foram e continuam sendo essenciais para preservar a dignidade e a independência da República. abogacía española.
Porque, como escreveu José Saramago:
“Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória, não existimos, e sem responsabilidade, talvez não mereçamos existir.”




