20 Novembro 2025
Paco Cabo: “O principal desafio da digitalização do sistema judiciário não é tecnológico, mas sim cultural e organizacional.”
A digitalização do sistema de administração da justiça agilizou o processamento dos procedimentos judiciais, mas exige que todos os atores se integrem ao novo paradigma digital, caso contrário, ficarão para trás, como alerta Paco Cabo Orero, coordenador do Programa Upro em Competências Digitais. 
“A transição de um modelo baseado em documentos para um modelo orientado a dados se traduz em processamento mais ágil, gestão automatizada e redução nos tempos de resolução”, afirma Paco Cabo Orero, advogado da Administração da Justiça, membro do Conselho Consultivo de Inovação, Direito e Justiça Digital e um dos coordenadores da Upro, promovida pela Ordem dos Advogados e Sindicato dos Profissionais da Área da Justiça.
Neste programa de formação em competências digitais, financiado com 200 milhões de euros pela União Europeia, a Paco Cabo coordena um dos módulos mais abrangentes dedicados à justiça digital, no qual serão debatidos a Administração da Justiça Digital, as suas ferramentas e soluções, os serviços digitais de outras instituições relacionados com a advocacia e a Administração da Justiça, bem como os serviços digitais jurídicos das administrações regionais e estaduais, também relacionados com a advocacia.
“A chegada da IA no campo da Administração da Justiça já é uma realidade e, sem dúvida, contribuirá para a agilização dos procedimentos”, afirma Cabo, que também detalha que entre as limitações na fase de transição estão “a heterogeneidade tecnológica entre os territórios e a necessidade de formação digital avançada”.
Diante dessa falta de uniformidade na obtenção da verdadeira digitalização, Cabo enfatiza a importância de consolidar a gestão da mudança, pois “o principal desafio não é mais tecnológico, mas cultural e organizacional”. “A verdadeira transformação digital exige que todos os atores do sistema — juízes, promotores, advogados, procuradores, etc. — se integrem plenamente ao novo paradigma digital”, acrescenta.
Destaca-se também a importância de “promover a interoperabilidade entre os sistemas e assegurar uma governação partilhada que garanta a homogeneidade e a cooperação entre as diferentes administrações com competências em matéria de justiça. Só assim a digitalização será um instrumento de coesão e não uma fonte de desigualdade territorial.”
A eficácia da tecnologia que temos disponível “depende da capacidade das pessoas de adotá-la com confiança e bom senso. Aqueles que não se integrarem ficarão para trás”, enfatiza ele. Porque “a digitalização deixou de ser opcional”, como afirma nesta entrevista.
Em relação às ferramentas essenciais de que a Administração precisa para auxiliar os advogados, Paco Cabo destaca que o necessário "é que as plataformas existentes, como o LexNET, a Pasta da Justiça ou os tribunais eletrônicos, sejam estáveis, confiáveis e acompanhadas de um sistema eficaz de assistência técnica em tempo real".
Além disso, Cabo considera “essencial promover programas de formação contínua” e, nesse sentido, o Upro, Programa de Formação em Competências Digitais, aprimora essas habilidades profissionais. O curso compreende 150 horas de formação personalizada e com tutoria, sendo 20 horas presenciais em associações de advogados participantes e o restante online. Ao final do curso, os participantes receberão o Certificado Profissional em Competências Digitais, que os credencia como advogados digitais. As inscrições ainda estão abertas.




